Encurralado

Em quase todos os jogos de tabuleiro – xadrez, GO, gamão, etc. – os cantos soletram a derrota e a morte. O canto de cada jogo é diferente, porém, eu sei exatamente o sentimento que corre em minhas entranhas quando sinto que estou encurralado. Minha pulsação aumenta, minhas emoções afloram (raiva, frustração, impaciência) e muitas vezes acabo por cometer erros que agravam minha situação.

Esse aspecto de encurralamento torna-se muito mais real nos esportes como boxe, futebol, basquete, artes marciais. Você se retrai, sua garganta contrai, seu corpo se aperta quando se dá conta que está num espaço confinado. Musashi tinha muito a escrever sobre esse assunto, e não posso fazer melhor.

No livro “33 Estratégias” eu teorizo de onde vem isso. Nós, seres humanos, fomos nômades por milhões de anos. Associávamos a liberdade e o bem-estar com a capacidade de se mover por espaços abertos, tentando encontrar melhores lugares para cala. Os anos em que passamos instalados em cidades são minúsculos em comparação aos anos do nomadismo. Porém, até os dias de hoje, o pensamento de espaços confinados, de opções limitadas, de sentir-se inundado nos infunde em pânico e confusão. Obviamente, na guerra, o canto significa morte instantânea, embora isso pudesse ser revertido na dinâmica da estratégia da “zona de morte”.

Agora, tais cantos existem em planos mais altos e abstratos. Existem em nível de carreira e negócios. Exemplo, uma pessoa descobre que ir a certo extremo de sua personalidade garante-lhe muita atenção, fama e sucesso. Tal característica até poderia ser uma vantagem agressiva, uma mentalidade guerreira, porém, a medida que desenrola, tal atributo se transforma em um “canto”. As pessoas só podem esperar que você aja da mesma forma agressiva e logo se cansam de você e se voltam para alguém mais novo. Se você muda e adapta sua personalidade, é visto como alguém que não é autêntico, se você permanecer como um jovem irritado, não terá mais atenção dos outros e soará cansativo.

O que lhe trouxe fama torna-se sua armadilha. Isso acontece muitas vezes com a carreira das pessoas. São impulsionadas por algo que funcionou em suas juventudes, mas conforme envelhece, acaba lhes limitando.  E não há sentimento pior do que ver o que funcionou no passado não funciona mais agora. E você pode piorar ao reagir: tornando-se mais agressivo ou mudando completamente.

Outro exemplo: você começa um relacionamento com alguém, e esse alguém não gosta de determinado aspecto da sua personalidade, criticando-o constantemente. Você aprende a recuar porque, em geral, você gosta da pessoa e lutar por algo sem relevância não parece valer a pena. Isso continua por meses ou anos, e você constantemente recua em diversas questões para evitar conflitos, e de repente, você percebe que você está… no canto! Sair do canto é terminar o relacionamento. Você se sente extremamente preso no canto. É um encurralamento, uma paralisação. Suas peças não têm mais movimento.

Na política, você traça um curso na direção forte para se diferenciar de seu antecessor que parecia indeciso em comparação com você. Primeiramente, isso é revigorador e o faz parecer forte. Mas mover-se em direções fortes não é necessariamente estratégico, se tais movimentos não são devidamente calculados pode se tornar uma armadilha, um canto. Você não consegue mudar de direção sem parecer fraco. Você certamente não pode recuar. Suas opções se tornam limitadas. O que funcionou nos primeiros anos agora se torna um beco sem saída.

Como você está agora, em sua profissão, relacionamentos, batalhas que enfrenta? Está agarrado a um canto? E digo mais: você raramente tem consciência disso, pois muitas vezes é quando você está animado, comprometido e movendo-se em alguma direção que inadvertidamente acaba se aprisionando.

Sempre há maneiras de sair em um sentido tático (momentâneo), mas o mais inteligente é tornar-se um estrategista ao modo de Sun-Tzu. O que importa no universo de Sun-Tzu não são posições de força e poder, mas situações em que você tem opções repletas de força e potencial. É algo diferente do que estamos acostumados e pensar, particularmente no ocidente, em que tudo gira em torno de objetivos imediatos. Isso é pensamento linear. O que você deve almejar é aumentar suas opções de energia e mobilidade. É mais como uma posição leve e fluida do que algo imóvel e enraizado.

Na política, Franklin D. Roosevelt foi mestre nisso (e sugiro ler a melhor das biografias dele, “O leão e a raposa”). No boxe, Ali é o epítome. No futebol, acho Bill Bellichek ser o melhor, como treinador, no que tange à estratégia. No hip-hop, dizem que Jay-Z é o melhor dessa manobra, mas é muito cedo para dizer. Na luta a espada, Musashi reina supremo e “O livro dos cinco anéis” é um manual para guerrear de maneira fluida. Na guerra existem inúmeros exemplos para estudar e seguir.

A guerra no Iraque pode ser analisada dessa forma, como uma pirâmide invertida de opções decrescentes. E a solução só poderia ter chegado no início, no qual a principal questão estratégica teria sido como colocar os EUA na melhor posição possível, cinco anos atrás, com opções para manobrar. Isso poderia ser traçado de várias formas: diminuindo nossa dependência do petróleo, construindo lentamente nossa imagem no oriente médio com várias políticas orientadas, isolando os extremistas e, após certo tempo de maturação, considerar a guerra como mera opção. Ou qualquer outra opção que se apresentasse, mas que demonstrassem força e mobilidade em detrimento da posição de canto a qual ocupamos agora.

Em nível de carreira, sempre aconselho as pessoas a olharem para frente, abrindo-se às mudanças de direção. O trabalho que parece tão bom hoje pode facilmente transformar-se em um pesadelo, se você não enxerga os possíveis cantos. Você pode facilmente ser encurralado. Eu sei, pois trabalhei em Hollywood, seduzido pelo salário, me agarrei ao canto. Quando me livrei desse pesadelo, saí muito diferente, pensando à frente e planejando um novo aspecto para minha vida. Ao invés de me tornar um roteirista, uma posição presa, procurei escrever livros sobre assuntos que me motivassem e me apresentassem inúmeras possibilidades de ter uma posição fluida. E mesmo que eu fosse roteirista algum dia, seria nos meus termos, e não como os outros quisessem. Eu fui sortudo ao longo de minha carreira, mas agora sinto que finalmente me aproximei da posição que almejei, de força potencial, embora a batalha nunca acabe.

 

Original: http://powerseductionandwar.com/corners/

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